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BETS JÁ AFETAM O VAREJO, O ORÇAMENTO FAMILIAR E A SAÚDE MENTAL, APONTA PESQUISA NACIONAL
BETs já afetam o varejo, o orçamento familiar e a saúde mental, aponta pesquisa nacional

BETs já afetam o varejo, o orçamento familiar e a saúde mental, aponta pesquisa nacional

As casas de apostas online, conhecidas como BETs, deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento digital. O crescimento dessas plataformas, impulsionado pelo uso do celular, pelo Pix e pela publicidade intensa, passou a disputar espaço com despesas básicas no orçamento das famílias brasileiras.

É o que mostra a Pesquisa Nacional Apostas Online no Brasil, realizada pela Febrafar em parceria com o IFEPEC, com participação do NEIT/Unicamp e do Instituto Axxus, entre junho e agosto de 2026. O levantamento reúne duas frentes complementares: uma pesquisa com 1.500 apostadores das classes C, D e E, de 18 a 70 anos e distribuídos pelas cinco regiões do país; e outra com 2.020 profissionais de saúde mental, sendo 1.020 psiquiatras e neurologistas e 1.000 psicólogos.

Ao combinar o relato dos apostadores com a percepção clínica de quem atende pacientes afetados pelo jogo, o estudo revela um ciclo que conecta perda financeira, endividamento, redução do consumo, conflitos familiares e adoecimento mental.

R$ 143,8 bilhões deixaram de circular no varejo

O impacto mais direto para a economia real aparece no deslocamento de renda. Segundo estimativa do IFEPEC apresentada no estudo, R$ 143,8 bilhões deixaram de circular no varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026 porque foram direcionados às apostas digitais.

Esse movimento atinge especialmente os negócios que dependem do consumo cotidiano das famílias. Quando parte da renda disponível migra para as BETs, sobra menos para alimentação, higiene, manutenção da casa, educação e medicamentos. O efeito, portanto, não se limita ao faturamento das plataformas: alcança lojas, farmácias, prestadores de serviços, empregos e a arrecadação gerada pela atividade econômica local.

Para o varejo farmacêutico, o alerta é ainda mais sensível. Medicamentos e produtos de cuidado não são compras supérfluas, mas o estudo mostra que até mesmo itens essenciais entram na lista de despesas reduzidas por quem aposta.

A aposta é vista como saída financeira, mas quase todos registraram perdas

Um dos achados mais relevantes é a motivação para apostar. Para 74% dos entrevistados, a razão é diretamente financeira: pagar dívidas, obter renda extra ou alcançar objetivos como comprar uma casa ou um carro. Apenas 20% citaram prazer, adrenalina ou diversão com amigos como principal motivação.

Na prática, porém, a expectativa de ganho contrasta com os resultados declarados. Nos 30 dias anteriores à pesquisa, 90% disseram não ter ganhado nada e 99% registraram prejuízo. Considerando os seis meses anteriores, 99,6% afirmaram ter perdido mais do que ganharam.

Os números mostram uma contradição preocupante: pessoas já pressionadas por dificuldades financeiras recorrem às apostas como promessa de solução, mas acabam expostas a novas perdas e ao agravamento das próprias dívidas.

Menos dinheiro para alimentos, medicamentos e higiene

A redução do consumo básico aparece de forma objetiva no levantamento. Entre os apostadores entrevistados, 41% disseram ter reduzido, algumas ou muitas vezes, a compra de itens essenciais, incluindo alimentos, medicamentos e produtos de higiene. Outros 48% diminuíram gastos com material escolar ou manutenção da casa, e 29% deixaram de pagar contas como água, energia ou aluguel em razão das apostas.

Os percentuais podem ser ainda maiores. Dependendo da pergunta, entre 41% e 51% dos participantes preferiram não responder. Por isso, o próprio estudo recomenda interpretar os resultados como patamares mínimos do problema, e não como sua dimensão total.

O endividamento também é amplo: 81% dos apostadores entrevistados possuíam dívidas. Entre eles, 74% estavam com pagamentos atrasados, enquanto 64% acumulavam de duas a seis dívidas simultâneas.

Celular, Pix e promoções tornam a aposta constante

A facilidade de acesso ajuda a explicar a intensidade do comportamento. O celular próprio é o principal meio de aposta para 88% dos participantes, e o Pix é usado por 86% como forma de pagamento. Além disso, 30% apostam todos os dias e 54% fazem apostas ao menos uma vez a cada dois dias.

Mais da metade dos entrevistados, 52%, realiza mais de 20 apostas por mês, e 43% possuem três ou mais aplicativos de jogos de azar instalados no celular. De acordo com as conclusões do relatório, o perfil dominante do apostador brasileiro é o de jogador de cassino virtual de baixa renda: 66% estão na categoria 2, dentro de um público formado pelas classes C, D e E.

Outro dado relevante é o uso de plataformas fora do mercado regulado: 56% disseram apostar predominantemente em sites não oficiais ou alternar entre plataformas oficiais e não oficiais. Isso amplia os desafios de fiscalização, transparência e proteção ao consumidor.

As promoções têm forte poder de estímulo. Entre os entrevistados, 95% já haviam recebido bônus, aposta grátis, cashback ou outro incentivo. Depois dessas ações, 88% disseram ter apostado mais do que costumavam.

Ao mesmo tempo, apenas 4% afirmaram estabelecer e respeitar um limite mensal de gastos. A perda de controle fica ainda mais evidente quando 97% dizem que gostariam de apostar menos ou parar, mas somente 9% acreditam que conseguirão.

Os efeitos chegam à família, ao trabalho e à saúde

O impacto não termina na conta bancária. Entre os apostadores, 62% relataram problemas de relacionamento familiar causados pelo hábito de apostar. Em 46% dos casos, a família nem sequer sabia que a pessoa fazia apostas.

Na saúde, 51% disseram ter enfrentado problemas relacionados ao jogo, como estresse, ansiedade, insônia ou tristeza. Para 41%, a vida piorou depois que começaram a apostar; apenas 11% perceberam melhora.

A pesquisa com profissionais de saúde mental reforça essa gravidade. Na percepção dos entrevistados, entre os pacientes que apostam, 62% apresentam depressão maior ou distimia, 51% têm transtornos relacionados ao uso de álcool ou outras drogas e 31% apresentam transtornos de ansiedade. Os percentuais não devem ser somados, pois um mesmo paciente pode ter mais de um diagnóstico.

Nos casos em que o endividamento por apostas é o principal fator de estresse, os profissionais estimaram ideação suicida ativa ou passiva em 31% dos pacientes, planejamento de suicídio em 22,7% e tentativas após graves prejuízos financeiros em 2,7%. Entre 10% e 20% dos casos atendidos em serviços de saúde mental necessitam, segundo o levantamento, de internação psiquiátrica ou encaminhamento a unidades de crise.

O tratamento tende a ser prolongado: em média, de um a três anos ou mais, com estabilização inicial, prevenção de recaídas e suporte de longo prazo. O relatório também cita estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde de R$ 30,6 bilhões anuais em custos diretos e indiretos associados aos danos do jogo problemático no Brasil.

O que esse cenário exige do varejo farmacêutico

A pesquisa não coloca sobre as farmácias a responsabilidade de diagnosticar ou tratar o Transtorno do Jogo. Ela evidencia, porém, que estabelecimentos de saúde próximos da comunidade podem participar de uma resposta mais ampla, baseada em informação, acolhimento e encaminhamento responsável.

·         Capacitar as equipes para reconhecer relatos de sofrimento, endividamento e perda de controle, sem julgamentos ou estigmatização.

·         Orientar a busca por profissionais e serviços de saúde quando houver sinais de ansiedade intensa, depressão, risco de violência ou comportamento suicida.

·         Apoiar ações educativas sobre os riscos financeiros e emocionais das apostas, especialmente entre públicos mais vulneráveis.

·         Acompanhar mudanças no comportamento de compra e na procura por itens essenciais, usando dados para compreender os efeitos locais sobre o consumo.

O papel do farmacêutico deve permanecer dentro de suas atribuições profissionais. Acolher não significa assumir o atendimento clínico especializado, mas perceber sinais de risco e ajudar a pessoa a chegar ao cuidado adequado.

Regulação, prevenção e cuidado precisam avançar juntos

Com base nos resultados, o estudo recomenda fortalecer a fiscalização das plataformas, restringir práticas publicitárias e promocionais abusivas, criar mecanismos específicos de proteção para pessoas vulneráveis e ampliar ferramentas como limites de depósito, alertas e autoexclusão.

Na área da saúde, as propostas incluem reconhecer a ludopatia como questão de saúde pública, ampliar o atendimento no SUS e na rede de atenção psicossocial, capacitar profissionais para identificar um comportamento que muitas vezes permanece oculto e instituir protocolos de rastreio sobre hábitos de aposta, situação financeira e estresse.

Mais de 81% dos pacientes, segundo os profissionais ouvidos, só revelam que apostam depois de serem questionados especificamente. Isso ajuda a explicar por que o problema pode permanecer invisível até que as perdas financeiras, os conflitos ou o sofrimento psíquico se tornem graves.

Um alerta que ultrapassa o universo digital

Os dados mostram que o crescimento das BETs não pode ser analisado apenas como tendência de entretenimento ou inovação tecnológica. Quando a renda migra do consumo essencial para apostas, os efeitos se espalham pelo varejo, pelo orçamento doméstico, pelas relações familiares, pelo trabalho e pelo sistema de saúde.

Para a Rede Melhor Compra e suas farmácias associadas, compreender esse cenário é importante tanto para a gestão do negócio quanto para o compromisso com a saúde das comunidades atendidas. O desafio exige informação de qualidade, prevenção, regulação efetiva e uma rede de cuidado capaz de agir antes que a promessa de ganho se transforme em perda financeira, social e emocional.

Fonte principal: Pesquisa Nacional Apostas Online no Brasil: Um retrato dos impactos econômicos, sociais e de saúde. Pesquisa de campo realizada pela Febrafar em parceria com o IFEPEC, com participação do NEIT/Unicamp e do Instituto Axxus, entre junho e agosto de 2026.

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